domingo, 23 de março de 2014

Revista Trasgo 2


Acabei de ler a segunda edição da Revista Trasgo, uma publicação recente com a incrível e maravilhosa e *mil adjetivos pra expressar o quanto adorei a ideia* que faz uma coletânea de contos de fantasia e sci-fi, todos escritos por brasileiros. O tipo de coisa que eu mais adoro ler, e que nunca encontrei muito entre autores nacionais (ou pelo menos acho que não foram divulgados o suficiente pra eu chegar a conhecer mais facilmente).

Tenho descoberto autores do gênero de uns tempos pra cá, mas confesso que tive que buscar bastante – e não teria achado muita coisa se a internet não fosse o que é hoje (mas não era quando eu comecei a me tornar leitora ávida, há uns 15 anos atrás - há controvérsias sobre o tempo). Acho que a iniciativa da Trasgo é excelente exatamente por reunir autores em uma publicação com temáticas variadas, estilos de escrita diferentes e por aí vai. Dá pra ter vários gostinhos diferentes, várias reações, impressões e conclusões.

Quando eu li a edição piloto, fiz um post aqui comentando conto por conto. Dessa vez mudei de ideia: fica cansativo, e não acho que esse é o ponto. Cada um que leia a edição e tire suas próprias conclusões! Cada pessoa acaba elegendo seus favoritos de forma diferente, porque isso depende do gosto.

As minhas conclusões, dessa vez, estão um pouco mistas. A revista tem histórias fantásticas, mas algumas me desapontaram, confesso. Não necessariamente pelo conteúdo, mas pela estrutura: tenho concluído, depois de ler várias histórias diferentes por aí, que a ficção científica no Brasil não vai pra frente por um fator: o texto. Existem ideias geniais, personagens excelentes, mas faltam as entrelinhas, a sutileza, o implícito. Mas, principalmente, falta uma boa revisão do português em boa parte das histórias (e aqui eu não falo só dos contos que li na revista, mas mais genericamente mesmo).

Sem essas coisas aí, fica tudo muito duro, muito jogado. Parece que estou lendo um roteiro de cinema: a história pode até ficar legal depois que você imagina ela sendo filmada, com atores, com cenário, e por aí vai. Mas aí a gente é que tem que criar, porque não tem muito disso nas histórias, só fatos, acontecimentos repentinos, falas que surgem de um jeito brusco, sem a gente entender muito bem o que está por trás. Ok, os personagens são robôs, são alienígenas, são cientistas de um século no futuro que pensam logicamente, mas temos que lembrar que a ficção científica é um comentário/crítica da sociedade em que a gente vive, e é sim baseada em pessoas. E pessoas tem sutilezas, entrelinhas, tem coisas não ditas... E conversam de um jeito natural, nem sempre com “lhe” ou “sente-se”. Compro mais as histórias que escrevem um belo “senta aí” hahahaha

Tá, aproveitei a deixa pra comentar de uma forma mais genérica, mas a Revista, que é o assunto do post, não se resume a isso. Tanto é que eu não consigo dizer o quanto eu adorei “A Maldição das Borboletas Negras”! Parece que to ouvindo um sinhozinho contando a história de um monstro que passou por ali, vindo do mato, há um tempo, e causou uma bela confusão. Um causo. Com um “clima” de Ariano Suassuna, Guimarães Rosa e por aí vai, só com elementos bem brasileiros. Curti mesmo.

Também adorei “Rosas”, que me lembrou as aulas de Literatura do curso de Letras, que me dão saudade de vez em quando... E aqui vem tudo o que eu disse que sinto falta nas histórias de sci fi: sutileza, entrelinhas, coisas que não foram ditas mas estavam ali desde sempre. Uma bela “sacudida psicológica”. Só não saquei muito a relação com o tema de fantasia da Revista, porque pra mim ele teve uma pegada BEM realista... Mas sei lá, pode ser interpretação pessoal, né?


Enfim, bora todo mundo baixar o epub da Revista (a edição piloto também!) e conhecer o que anda sendo feito por aí!

Nome: Revista Trasgo 2
Nota no Skoob: 3/3
Site: http://trasgo.com.br/

5 comentários:

  1. Olá, Redd,

    Entendo o que você quer dizer com a questão que falta sutilieza nos textos brasileiros de FC. Acontece que o gênero é mais racional por natureza, principalmente se você tomar como base as décadas de 50 a 70, que são a maior influência no Brasil.

    Mas acho que isso está mudando aos poucos, com a popularização do gênero, e a publicação de coisa mais nova, que já trabalha muito melhor as entrelinhas. E há também uma questão de gosto, tem muito leitor que adora a parte "hard", a parte técnica da FC.

    Mas vamos ver o que consigo para a terceira edição. \o/
    Pelo que vi você gostou mais dos contos de fantasia. :)

    Muito, muito obrigado pelo comentário!
    Rodrigovk
    (Editor da Trasgo)



    *Spoiler para quem não leu*
    Ah, um último detalhe, sobre a questão se "Rosas" é ou não um texto de fantasia... Até onde sei, rosas não ficam mais vivas com sangue... Ou ficam? ;)

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    1. Oi, Rodrigo! Obrigada pelo comentário aqui!
      Bom, ainda mantenho muito do que eu digo justamente baseada na literatura das décadas de 50 e 70... O que eu quis dizer com entrelinhas e por aí não contraria em nada o lado racional, tanto é que muitos autores trabalahram com isso (como Philip K Dick, por exemplo, pelo menos na minha opinião). Falo mais no sentido literário mesmo, não de colocar sentimentalismo na história... Mas não me entenda mal, o meu comentário teve mais a intenção de sugerir que autores deem atenção para isso, e LÓGICO, é minha opinião pessoal (aliás, sempre tento deixar os textos aqui bem obviamente pessoais, porque acho injusto fazer uma 'crítica séria', julgar e ignorar que o gosto de outros pode ser diferente)... Enfim, não descarto que também tem muita coisa boa por aí!

      *resposta ao spoiler*
      Sim, pensei nisso, mas acho que relacionei tanto aos tais textos das auals de literatura que fiz uma leitura cética e considerei isso um aspecto 'psicológico' hahahaah Mas como eu disse aí, é minha interpretação e isso é de cada um, né?

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  2. Eu sinto uma coisa bem parecida em relação à FC brasileira, Redd: não tem sutileza alguma. Isso me cansa um pouco, sabe. Entendo que o foco da FC é muitas vezes a ciências, mas isso não justifica esses diálogos deslocados ou aquelas cenas caricatas. É cansativo de ler.

    Nesse sentido acho que a fantasia brasileira está avançando de um jeito bem melhor: vários autores contemporâneos apresentam essas coisas mais sutis, mais bem trabalhadas ao longo do texto. :)

    Bah, senti falta de mais comentários sobres os contos. Mas enfim, eu que sou curiosa mesmo com a opinião dos outros. :)

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  3. É bom ler comentários variados e livres de “efeitos de amizade”. Sou apenas amador, escondido através de um alter ego literário, e nem devo merecer o julgamento no nível dos profissionais. A diferença é que aceito as críticas e procuro incorporá-las nos próximos textos, passíveis de continuação. Mas conheço nomes muito bons na FC brasileira, como Roberto de Souza Causo e Gerson Lodi Ribeiro. Depende muito do gosto de cada um mesmo. Agradeço a leitura e sinceridade! Irei aplicar os conselhos.

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  4. Fiquei muito feliz com a apreciação de meu conto na revista. Deixo aos leitores a tarefa de decidir se o conto é de fantasia, pois rosas não se tornam mais vivas se adubadas com sangue, como disse o Rodrigo; ou se é um conto dark, com terror psicológico, mas que pode perfeitamente ser realista. Nesse caso o sacrifício é simbólico. O que importa, acima de qualquer classificação de gênero, é ter meu conto apreciado e comentado como boa literatura, escrita com sutileza e sensibilidade. :)

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